Relato de viagem – Transiberiana – Yekaterinburg

Ao descer do trem levei um susto porque tinha muita neve e eu realmente não estava esperando isso haha No entanto, o frio da Rússia é até agradável porque não venta e sol somente acaba lá pelas 21h, então da pra aproveitar muito o dia e não ficar sofrendo com o ventinho gelado entrando onde não deve rs. Foi minha primeira vez vendo tanta neve e ao descer do ônibus e caminhar até o hostel, eu confessso que sambei muito e em meus pensamentos agradeci muitissimo por ter adquirido um bom seguro-saude pois sentia que havia grandes chances de aparecer uma fratura ossea no meio do caminho!!! Teve uma hora que fiquei samabando, sem sacanagem, por uns 5 segundos com meu mochilão nas costas, mas consegui não cair haha

Ao chegar no endereço do hostel não achava por nada a entrada. Parei um russo que também tentou me ajudar e não achou. O russo parou uma russa que pegou o celular, olhou no google maps, tentou ligar e, juntamente com o primeiro russo, me caminharam até a entrada do prédio que era pela rua de trás. Tudo isso sem falar um “a “ em inglês. Mais uma vez a russaiada conquistando meu coração!

Estação de trem

Chegando no albergue, uma grata surpresa: era a única hóspede ahahaha Fico impressionada como aqui na Russia não tem turista!! Tudo bem que é abril e não é a alta temporada, mas eu sempre sou a turista solitária… Achei bom ficar sozinha depois de tanta bagunça no hostel de Moscou e de 27 h papagaindo no trem. O hostel era super limpinho, novinho e o mais importante: sem carpete. Odeio carpete! O nome é Art Hostel on Lenina e a localização é bem boa porque a Lenina é a rua principal de Yekaterinburg.

Eu resolvi parar em Yekaterinburg porque achei muito longo o trajeto de Moscou até Irkutsk direto, que a maioria do pessoal faz. Além disso, queria conhecer mais uma cidade menos turística para poder ver a “verdadeira “ Russia. Acabou sendo uma ótima escolha. Eu cheguei em Yekaterinburg umas 18h de um dia e fui embora as 22 h do outro dia, então o tempo foi suficiente para passear. A cidade em si é bem bonitinha, estava cheia de neve – o que era novidade para mim – e dava pra fazer tudo a pé. Eu não consegui dormir direito a noite por causa do jet lag que ainda me rondava e as 5:45 já tava de pé e comecei a passear assim que o sol raiou.

Yekaterinburg é a 4ª maior cidade da Russia atrás de Moscou, São Petersburgo e Novo Sibirsk. Essa cidade é famosa pois foi onde aconteceu o assassinato dos Romanov. Bem, para quem não sabe a história (eu também não sabia nada disso antes de pesquisar para vir aqui), quando estava acontecendo a revolução bolchevique, os bolcheviques estavam mantendo czar e  familia aprisionados e em 1918, depois de já terem passado um tempo em outro lugar, eles foram mandados para Yekaterinburg. Acontece que os tchecos resolveram rumar em direção à Yekaterinburg porque eles controlavam a Transiberiana e queriam marcar território. No entanto,  a cagada toda foi que os bolcheviques não se ligaram nesse detalhe e acharam que os tchecos estavam vindo para pegar a familia do czar e ficaram meio desorientados porque se os tchecos levassem czar e familia, as outras nações poderiam se recusar a reconhecer o governo bolchevique como legítimo pois existia a familia real russa. O que eles fizeram então? Sentaram czar, czarina e filhos no porão da casa em Yekaterinburg e executaram todos de uma vez só e o resto da família mais tarde no mesmo dia. Muito triste né? A casa onde o assassinato aconteceu foi demolida para que não se tornasse um local de homenagens e “perigrinação” e no lugar dela foi construída uma igreja – Church on all Blood – em homenagem a familia.

Church on all Blood

Bem, tirando a igreja que é provavelmente o ponto turistico mais famoso de Yekaterinburg, também dei uma voltinha para ver o resto que estava marcado no mapa. Terminado o passeio pela cidade, resolvi então ir visitar a divisa entre Europa e Asia porque estava com tempo sobrando. Mais uma vez, que erro Erikita!! Que erro!! Fui para a rodoviaria de Yekaterinburg e depois de muito custo consegui explicar que queria ir na divisa da Europa com Asia onde tem o monumento e tal. Entrei num pau de arara de deixar qualquer pau de arara do Brasil com inveja, entupido de russo até o talo e fui… Já tinha visto na internet que existiam 2 monumentos, um mais perto e um mais longe e resolvi ir no mais perto mesmo pra ir mais rápido. Bem, chegando lá, tinha um monumento, que sem sacanagem, era dificil de visualizar a mais de 200 metros de distância. Ficava na beira de uma rodovia super movimentada, a porra toda nevando e nenhuma construção interessante em volta, com excessão de um botequim beira de estrada. Depois de passar 2 minutos e 33 segundos admirando o monumento – o que é um tempo mais que suficiente – e ver que a paisagem pro lado direito, Europa, era exatamente igual à paisagem do lado direito, Asia, e não compreendendo o por quê de tamanho esforço de me locomover até ali, resolvi entrar no boteco para perguntar como iria embora (não preciso falar que no boteco só tinha eu e que o cara  não falava russo né?). Qual a minha surpresa ao ver o cidadão apontando e fazendo a mímica de que eu teria que sair correndo para atravessar a rodovia do lado dos carros indo, pular a mureta de contenção, atravessar o lado dos carros vindo e ficar ali, paradinha, em cima de um montinho de lama e neve esperando um busão passar. Com certeza esqueceram de contar esse detalhe lá no forum do Lonely Planet, se não tinha gastado esse tempo precioso bebendo uma cervejinha em algum pub na cidade!

Precisei até tomar uma cervejinha para relaxar e bolar minha estratégia de travessia rs

Enfim, depois de fazer o em nome do Pai, sai correndo até chegar do outro lado. Enquanto eu esperava o bus, apareceu um cara oferecendo carona, mas nem a pau que eu aceitei. Continuei lá esperando e graças a Deus o bus passou rapidinho e cheguei sã e salva em Yekaterinburg.

Ao chegar de volta na cidade, claaaaaaaaaaaro que não ia dar a mesma manota que dei no primeiro trem. Já fui logo parando no melhor supermercado da cidade (eu assumo que era o melhor porque era dentro de um shopping que só tinha loja de grife rs) e comprando comida suficiente pra 56 horas sem miojo cru. Esbanjei no queijo, presunto, patê, pão, torrada, banana, maçã, água, muita água, biscoito, etc etc e fui felizona pro hostel pronta pra causar inveja na russaiada com o meu banquete in transit.

Depois de um banho muito bem tomado e tudo pronto para ir pegar o trem, resolvi esbanjar e ir de taxi para a estação porque agora, além do meu mochilão, eu também tinha que carregar na neve e conseguir sambar legal com a sacola dos meus mantimentos que pesavam uns bons kgs e o taxi sairia algo em torno de R$10 apenas. O moço do hostel era bem bonzinho e sabia falar inglês, então já fui logo aproveitando pra sair do mute e poder falar bastante enquanto esperava o taxi porque aqui na Russia nunca se sabe quando será a próxima oportunidade de desembolar uma conversa!

(Mãe, favor pular o próximo parágrafo….)

Quando o taxi chegou ele já foi logo percebendo que eu não era russa, afinal russas não calçam botina e jamais andariam de calça de moletom e mochilão as costas. Quando ele viu que eu não falava russo, foi pegando o celular e ligando pra alguém.  A pessoa do outro lado da linha foi falando e ele tentando me perguntar “ere ari iu from?” e todas aquelas perguntinhas de introdução. Só que ai, meus caros, eu comecei a cagar nas calças e não vou negar. O cara começou a perguntar demais e não desligava a bosta do telefone e tava tentando perguntar tipo “du iu ravi monei?” e eu só imaginando porque ele queria saber isso e já rezando e pensando que eu tinha mais 3 dias de trem e que minha familia ja sabia que eu ia sumir por vários dias, então que só iam achar meus restos mortais daqui uma semana, etc. Foram uns 3 minutos de pânico interno, mas o cara me levou na estação normalmente e não cobrou a mais…Acho que ele só estava fazendo como os outros russos que olham para mim como se fosse um extraterrestre, mas confesso que do jeito que foi eu pensei que pudesse ser outra coisa!

 

Enfim, tudo certo e embarquei no trem mais uma vez, dessa vez, por 2 noites e um total de 56h. Depois tem mais 🙂

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